26 nov

Fertilização: entrevista com a Mariangêla Badalotti, diretora científica da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana

Muitas dúvidas podem surgir quando se fala de tratamento para fertilização. Então, confira esta entrevista sobre as principais dúvidas acerca da infertilidade feita com a diretora científica da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana e diretora do Fertilitat, Centro de Medicina Reprodutiva, Mariangela Badalotti.

1. Quais são os tratamentos mais comuns para a infertilidade?

Os tratamentos mais comuns são indução da ovulação, fertilização in vitro, inseminação artificial, tratamentos para endometriose e tratamento do fator masculino.

2. Quais são as chances de sucesso da fertilização in vitro conforme faixa etária?

A chance de gravidez por fertilização in vitro, que pode ser de 50% abaixo de 35 anos, vai diminuindo gradativamente, chegando a 20% aos 41 anos e, epidemiologicamente, é zero depois dos 45 anos quando a mulher utilizar os próprios óvulos.

3. Quais são os desafios atuais?

O que se busca implementar hoje é reduzir custos e melhorar resultados.

Fertilização In Vitro

4. Como saber se a mulher ou o casal tem um problema para ter filhos?

Até que se prove o contrário, todos somos férteis. Então o problema se manifesta quando a gravidez não ocorre. O conceito de infertilidade é a falta de gravidez após um ano de tentativa. Dependendo da idade feminina, começamos a investigar antes disso.

5. Existe uma idade ideal para mulher engravidar pela primeira vez? Até que idade as mulheres podem adiar a gravidez?

A fertilidade feminina começa a diminuir a partir dos 35 anos, numa proporção de mais ou menos 3% ao ano. A chance de gravidez de cada mulher, quando não existem problemas adicionais, está na dependência do potencial do ovário em produzir óvulos adequados e ainda não existe nenhum exame que nos indique claramente até quando isso acontecerá. Por isso a questão idade é tão importante!

6. A maneira de enxergar a gravidez tardia mudou. Por quê?

Postergar a maternidade foi uma consequência natural da inserção da mulher no mercado de trabalho. Com isto foi-se adquirindo experiência no acompanhamento de gravidez em mulheres mais maduras.

7. O que indicam os últimos dados sobre gravidez tardia?

As estatísticas de qualquer país mostram aumento dos números de filhos de mulheres com mais de 35 anos. Nos Estados Unidos a gravidez depois dos 35 anos aumentou mais de 80% nos últimos 30 anos. No Canadá, em 2005, 25% dos primogênitos era filho de mulheres com mais de 35 anos, comparando com 6% em 1975. No Brasil, gravidez em mulheres com mais de 40 anos aumentou 27% na década passada.

8. Quais são os riscos da gravidez conforme a faixa etária?

Com o aumento da idade feminina ocorre maior número de abortamentos, maior risco de malformação fetal e de morbidade materna.

9. Quais são os principais riscos da gravidez tardia para a mulher? Por quê? Como saber se a pessoa já ultrapassou o período recomendado para ter filhos?

O primeiro aspecto a ser considerado é o estado de saúde da mulher para avaliar a condição de gravidez em idade mais tardia. Entretanto, mesmo em mulheres saudáveis é maior a chance de surgirem complicações como hipertensão e diabetes com o avançar da idade. Depois dos 50 anos, é provável que os riscos aumentem bastante para a mulher, ainda que se conheçam poucos dados sobre este assunto.

10. O que você recomenda para a mulher fumante que quer ter filhos?

Que pare de fumar ontem!!! O tabagismo diminui a chance de gravidez e vale tanto para os homens quanto para as mulheres. Além disso, traz consequências negativas para o nascituro.

11. Quais são os impactos da obesidade na fertilidade?

Estamos vivendo uma epidemia mundial. No Brasil, segundo dados do IBGE de 2010, mais de 65 milhões de pessoas, 40% da população, estão com excesso de peso, enquanto 10 milhões são considerados obesos. A obesidade reduz a qualidade do óvulo, levando à redução da fertilização e da implantação embrionária. O índice de gravidez espontânea também é afetado, assim como há um maior percentual de abortamento comparados com as mulheres com peso normal.

12. A obesidade também interfere na fertilidade masculina?

Sim, pois tende a aumentar a fragmentação do DNA espermático e interfere negativamente sobre a qualidade embrionária.

13. Repercute também nos recém-nascidos?

Tem consequências graves para os recém nascidos: aumento do índice de malformações do tubo neural e maior incidência de mortalidade neonatal. Além disso, a associação de fatores genéticos e de hábitos de vida determina 50% de probabilidade de obesidade ou sobrepeso para filhos de pai ou mãe obesos, e de 90% de probabilidade no caso de ambos serem obesos.

14. No que tange à reprodução assistida, o Brasil acompanha padrões internacionais?

Sim, como mostram nossos resultados, do Fertilitat, que são comparáveis aos de qualquer centro de primeiro mundo.

15. Quais são os próximos desafios do Fertilitat, que neste ano completa 23 anos de atuação?

Continuar crescendo como centro de referência, mantendo padrão de excelência técnica, ética e de relacionamento. Aumentar a atuação em pesquisa básica e translacional.

Mariangela Badalotti*Mariangela Badalotti é diretora científica da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana e do Fertilitat, Centro de Medicina Reprodutiva.