16 jul

Caso real: vencendo o câncer

Por Karen Martinelli

Bem, primeiro vou me apresentar. Meu nome é Karen Martinelli, tenho 30 anos, sou produtora de moda e make, e blogueira do Blog Minha Vitrine.

Em 2011, aos 27 anos, comecei a ter uma febre no final do dia que não passava. Corri atrás e nada foi achado. Em novembro, fui colocar a mochila para ir ao trabalho e senti um incomodo no pescoço. Foi quando percebi um carocinho. Minha irmã mais velha, médica, me levou ao hospital. Foi quando pela primeira vez fui internada. 15 dias antes do meu noivado, fui diagnosticada com linfoma de Hodgkin em estágio avançado.

Eu e minha família parecíamos anestesiados com tudo isso, e meu noivo na época não quis adiar o noivado. Os médicos atrasaram meu tratamento para que eu pudesse noivar com meus próprios cabelos. Afinal, eles tinham os dias contados.

Karen - Blog Minha Vitrine

O noivado aconteceu e foi bem emocionante. Mas, tantas coisas ainda aconteceriam na minha vida que eu nem imaginava.

Três dias antes do natal em 2011 recebi minha primeira quimioterapia, e neste momento percebi que meu mundo iria mudar totalmente, inclusive eu.
Minhas sessões de quimioterapia eram de 15 em 15 dias. Eu sofria muito com os efeitos colaterais, dentre eles febre, enjoos, dores no corpo e uma canseira que me consumia. Após a minha primeira sessão cheguei em casa muito mal e disse: “Não aguento! Desisto. Não quero mais”. E foi quando minha mãe disse: “Vamos orar, filha. Só faltam mais 18”.

Esse amor sem medidas que eu recebia era o meu combustível. E a medida que as coisas aconteciam tudo mudava. Meu corpo, pois ao contrário do que muitos pensam, os remédios da quimioterapia incham demais; e minha vida, pois me afastei do trabalho e estudos.

Neste momento minha família me incentivou a fazer o blog, para que pudesse me atualizar sobre tudo que eu gostava e trabalhava. De certa forma foi uma terapia, pois não conseguia sair de casa. O blog Minha Vitrine nasceu como um escape e hoje faz parte da minha vida.

Minha vida pessoal merece um parágrafo especial. Eu tive que saber separar minhas amizades em 3 grupos: os que não estavam nem aí, os que não sabem lidar com uma amiga com câncer e os que estão juntos para tudo. Isto para mim foi pesado. Tive que aprender sobre tudo isso. Haviam pessoas que não sabiam lidar comigo, e outras que achavam que eu fosse morrer. Mesmo com tudo isso, a situação foi para mim um imã de pessoas boas, que apareciam e ofereciam ajuda de alguma forma, seja em uma palavra de conforto ou uma oração, sem ao menos me conhecerem.

Minha vida amorosa também sofreu mudanças. Depois de algumas sessões de quimioterapia, em um dia, num final de tarde, recebo um telefonema do meu noivo. Ele, com uma voz calma, falou somente uma frase: “É melhor eu seguir meu caminho e você o seu, Kah”. Depois desta frase me deparei chorando e olhando para tudo que estava acontecendo. A sensação era que eu estava sentada na janela vendo o mundo correr lá fora, mas dentro de mim estava tudo parado. Chorei muito, coloquei tudo para fora . Eu tinha duas escolhas: chorar, entristecer e magoar, e tudo isso não iria fazer o câncer ir embora; ou respirar, juntar forças e seguir em frente. Preferi a segunda. Deus me deu forças para seguir focada em uma coisa: minha saúde.

Foram oito longos meses de quimioterapia e mais 24 sessões de radioterapia. Esta não possui efeito colateral, mas queimou toda a minha pele do tórax, deixando cicatrizes até hoje.
Depois de um ano completo de tratamento, recebo a notícia que estava curada, sem tumor algum. Foi uma felicidade total. No fundo, eu também estava com medo de voltar para minha vida normal, que de normal já não tinha muito. Retomei meus cursos e voltei a trabalhar, mas a cada três meses fazia minhas manutenções de exames.

Após 6 meses de cura total, percebi algo diferente em meus exames. Na mesma hora corri para o consultório da minha médica. E logo depois recebi a notícia mais pesada da minha vida: “O câncer voltou”. Eu chorava tanto que não conseguia pensar em mais nada. Eu sabia pelo o que eu tinha passado e não achava que conseguiria novamente. Me senti sem forças.

O tumor tinha voltado no tórax, e fui encaminhada para uma cirurgia de grande porte para a retirada. Os médicos confirmaram que o grau do tumor era o mesmo do anterior. A cirurgia durou seis horas e quando acordei estava na UTI com drenos, sondas e um oxigênio que me ajudava na respiração. Eu não sabia o que pensar. Parecia que meus pensamentos estavam dentro de um caça-palavras e eu não conseguia achar palavra nenhuma.

Um dia depois recebi a notícia que confirmara o grau do tumor. Desta vez, eu seria encaminhada para um transplante de medula óssea. O TMO, como é chamado, era um mundo novo e tive que aprender tudo, de novo. Eu tinha apenas um pensamento, pedir forças a Deus, porque eu, Karen, já não era mais capaz. No preparatório para o TMO, recebi químios fortíssimas durante 4 dias de internação. Eu precisava de 21 sessões. Foi então que eu realmente senti minha vida balançar. Cheguei a ter uma convulsão, porque meu corpo já não tinha mais magnésio, cálcio, potássio, dentre outros eletrólitos, com risco de ter parada cardíaca e outros.

Passando a fase de quimioterapias arrasadoras, finalmente iria saber se poderia ser minha própria doadora. Recebi muitas injeções na barriga, coloquei um cateter externo, e fui encaminhada para a filtração do sangue e análise da medula. A boa notícia, com a graça de Deus, era que minha medula respondeu bem, e os médicos puderam colher uma boa quantidade para meu transplante e para o banco de medula.

Fiz as malas, e lá estávamos eu e minha mãe, que topou ficar 24 horas comigo sem poder sair do hospital. Vou explicar o porquê. No TMO o quarto é isolado e filtrado o tempo todo. Não se pode abrir as janelas e tudo é controlado, da comida à urina. Médicos e enfermeiras precisavam estar com a saúde em dia, pois nenhum vírus ou bactéria poderia entrar. Após os 7 primeiros longos e intermináveis dias de quimioterapias 24h por dia, para matar todas as células do corpo, ou, como eles chamam, “aplasiada”, minha medula chegou, congelada e em vários recipientes.

Eu não estava bem, me sentia muito mal, sem forças e muito inchada (20kg só nesses primeiros dias de inchaço). Tive trombose e todo o cabelo tinha ido embora, juntamente com todos os pelos do meu corpo. Esta é uma sensação tão diferente que não consigo descrever. Recebi minha medula em 2 dias. O recebimento é feito pelo sangue. E logo recebi a notícia: “Agora, é só esperar para ver se vai pegar”.

Neste momento, vi que todos nós no mundo somos iguais, do mais rico ao mais pobre. Nesta situação só Deus pode dar forças para o grande dia chegar. Mil pensamentos passavam pela minha cabeça e pela primeira vez me peguei pensando na morte. Pedi a Deus forças a cada minuto, e que minha medula respondesse. E foi quando após 9 dias de espera minha medula nova disse: “Oi, eu peguei e estou aqui nascendo”. Foi uma felicidade sem igual. Eu, minha mãe, as enfermeiras, família e amigos fizemos uma festa. Ao todo foram 40 dias de internação e mais 100 dias de recuperação em casa, de repouso.

Não foi fácil, o caminho foi bem longo. E eu sempre falo que neste caminho teve muitas pedras, mas tudo era apenas uma amostra do castelo que estava me esperando.
Na recuperação do pós-transplante, Deus tocou em meu coração para ajudar mulheres que estavam passando por tudo que passei. Foi neste momento que o Projeto do Rei nasceu.

O Projeto do Rei é um projeto voluntário que ajuda mulheres que estão em tratamento oncológico. Em sua primeira quimioterapia a mulher ganha um KIT REAL, que contém um lenço (para a parte da perda dos cabelos), um cosmético (para a auto estima) e um livreto motivacional (palavras boas para refletir).

Hoje eu realizo palestras com o título “Moda, Make & Quimioterapia”, onde dou dicas de moda e maquiagem durante o tratamento, ainda conto minha experiência de vida, pois passei pelo o que muitas mulheres estão passando.

Karen - Blog Minha Vitrine

No último 19 de maio completei um ano de TMO, com direito a bolo e vela, pois Deus me deu uma nova vida para viver, e nela um novo sentido ser feliz.

Meu coração está bem e hoje preciso me adaptar aos meus novos limites, pois com o TMO eu acabei entrando na menopausa precoce. Ser mãe para mim tomou um novo sentido e sei que a pessoa certa irá me aceitar dessa maneira. Já emagreci 14kg. Faço corridas de rua, coisa que nunca imaginei em fazer. Essa é a sede de viver que me invade agora. Voltei a trabalhar, e meu sonho é que meu Blog Minha Vitrine, seja reconhecido. Afinal, minha terapia virou amor.

De tudo isso, o que posso dizer? Independente do que você possa estar passando Deus tem o melhor para sua vida.

Ps: E sabe aquele noivo que se foi? Bem, ele me pediu para voltarmos. Mas ele ganhou um ex bem na frente do nome. Não era para ser.