12 dez

Câncer: INCA estima 600 mil novos casos entre 2016 e 2017

O oncologista, Dr. Augusto Takao  Pereira, dá o panorama sobre as principais formas de tratamento e prevenção


Infelizmente os casos de câncer têm sido cada vez mais frequentes no Brasil. Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer — INCA, a estimativa para o biênio 2016–2017 são cerca de 600 mil novos casos. De acordo com o Dr. Augusto Takao Pereira, oncologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, os tipos de câncer mais comuns nos homens brasileiros serão os de próstata (28,6%), pulmão (8,1%), intestino (7,8%), estômago (6,0%) e cavidade oral (5,2%). Já nas mulheres os principais serão os cânceres de mama (28,1%), intestino (8,6%), colo do útero (7,9%), pulmão (5,3%) e estômago (3,7%).

Formas de tratamento

Dr. Augusto Pereira afirma que as principais formas de tratamento do câncer são quimioterapia, radioterapia e cirurgia.

Quimioterapia: é um tipo de tratamento com uma droga ou uma combinação delas que interfere no crescimento das células do câncer. É considerado um tratamento sistêmico, isto é, age em todo o corpo do paciente e pode ser aplicada via endovenosa, subcutânea ou oral. A quimioterapia seleciona as células tumorais que estão em crescimento rápido, poupando as células saudáveis que não estão em crescimento acelerado. Porém, algumas células normais do nosso organismo também estão em crescimento rápido como as células do sangue, cabelo e intestino, e por isso podem ser atingidas pela quimioterapia causando anemia, queda da imunidade, queda do cabelo, diarréia, náuseas e vômitos.

A quimioterapia pode ser: neoadjuvante, utilizada antes da cirurgia para permitir uma ressecção mais conservadora principalmente no câncer de mama; adjuvante, realizada após a cirurgia para reduzir o risco de recidiva da doença principalmente em câncer de mama, cólon e pulmão; e paliativa, aplicada em doença metastática para controlar o crescimento da doença, aliviar sintomas e aumentar a sobrevida dos pacientes. Em alguns tipos de tumores, como de testículo e linfoma, a quimioterapia tem capacidade curativa quando usada isoladamente.

Radioterapia: é um tratamento que utiliza radiação de alta energia para danificar o DNA das células tumorais e induzir morte celular. Esse tipo de tratamento requer um planejamento bem detalhado para aplicar uma alta dose na área onde se localiza o tumor sem prejudicar as células saudáveis ao seu redor. A radioterapia pode ser aplicada externamente ao corpo ou através de sementes radioativas injetadas dentro do corpo próximo ao tumor.

A radioterapia pode ser utilizada com intenção curativa em tumores como câncer de colo de útero, próstata, pulmão, orofaringe, nasofaringe e laringe. Pode ser utilizada como complementação de uma cirurgia para reduzir o risco de recidiva local. Em doença metastática, pode ser utilizada para o alívio de sintomas como dor, sangramento pelo tumor e falta de ar por obstrução de vias aéreas.

Cirurgia: é a modalidade de tratamento com capacidade curativa em tumores iniciais e localizados. Pode ser utilizada também de forma paliativa para aliviar sintomas da doença. Deve ser realizada por cirurgião especializado em câncer, o que aumenta as chances de retirada completa do tumor sem deixar lesões residuais. Pode ser feita de forma convencional a céu aberto, por videolaparoscopia ou videotoracoscopia e por robótica.

Sequência do tratamento de câncer

Ainda segundo o especialista, a sequência de tratamento varia conforme o tipo e localização do tumor. Confira:

  • Para tumores ressecáveis, opta-se inicialmente pelo tratamento cirúrgico para ressecção completa do tumor seguindo os princípios da cirurgia oncológica. Após a cirurgia, em pacientes com características de alto risco de recidiva, pode ser oferecido quimioterapia e radioterapia adjuvantes para aumentar as chances de cura.
  • Para tumores volumosos ou em localizações mais delicadas onde a cirurgia pode comprometer a capacidade funcional e estética do paciente, pode-se realizar quimioterapia ou radioterapia inicialmente com intuito de reduzir o tumor e possibilitar a cirurgia de forma mais conservadora.
  • Para tumores metastáticos, a principal forma de tratamento é a quimioterapia que age de forma sistêmica atingindo todas as lesões que estão espalhadas pelo corpo. A radioterapia e a cirurgia nesses casos são reservadas para paliação de sintomas da doença.

“Alguns quimioterápicos podem sensibilizar as células tumorais durante a radioterapia, aumentando a eficácia quando utilizados de forma combinada. Essa modalidade combinada pode ser aplicada no tratamento curativo de câncer de colo de útero, pulmão, orofaringe, nasofaringe e laringe”, explica.

Algumas medidas protetoras identificadas:

  • Manter uma alimentação saudável

A ingestão por tempo prolongado de carne vermelha e carne processada pode contribuir para o aumento no risco de câncer de intestino devido a produção de substâncias carcinogênicas durante o seu preparo e durante a sua digestão no trato gastrointestinal. A ingestão de cálcio, vitamina D, dieta rica em frutas, verduras e fibras tem sido apontadas como fatores protetores para o desenvolvimento de câncer de intestino.

  • Evitar o tabagismo

O cigarro é fator de risco para inúmeros tipos de câncer como o de pulmão,  cavidade oral, laringe, faringe e esôfago. O melhor maneira de controlar as doenças causadas pelo cigarro é o ato de parar fumar. Os benefícios da interrupção do tabagismo já são percebidos nos primeiros 20 minutos de abstinência. Após 10 anos sem fumar, o risco de câncer de pulmão cai pela metade. Quanto mais cedo o indivíduo parar de fumar, principalmente antes dos 40 anos, menor o risco de morrer por doenças relacionadas ao cigarro. Mesmo indivíduos com idade maior de 80 anos apresentam redução na mortalidade ao parar de fumar.

  • Evitar  ingestão de bebidas alcoólicas

O consumo de bebidas alcoólicas em qualquer quantidade contribui para o risco de câncer, principalmente quando combinado ao tabagismo. Os tumores relacionados ao álcool são: de boca, faringe, laringe, esôfago, fígado, intestino e mama.

  • Manter peso corporal adequado e praticar atividades físicas

A obesidade é considerada fator de risco para câncer de mama, endométrio,  intestino e outros. O combate a obesidade é uma importante medida para redução na incidência de câncer.

  • Evitar exposição ao sol entre 10 horas e 16 horas e usar filtro solar ou outros métodos de barreira como chapéus

A exposição aos raios ultravioleta do sol é principal fator de risco para os cânceres de pele inclusive o melanoma.

Exames para rastreamento do câncer como forma de prevenção

Exame de mamografia

Exame de mamografia

Dr. Augusto Pereira explica que o rastreamento de câncer de mama com mamografia anual é indicado em mulheres a partir de 40 anos, conforme recomendado pela Sociedade Brasileira de Mastologia. Nos casos suspeitos, a confirmação do diagnóstico de câncer de mama é feito por meio da biópsia de lesões identificadas na mamografia, ultrassom, ressonância mamária ou exame clínico.

Já a detecção precoce dos tumores intestinais e dos adenomas pelos métodos de rastreamento, a partir dos 50 anos, como sangue oculto nas fezes, colonoscopia e retossigmoidoscopia é essencial para a cura ou prevenção para o desenvolvimento do câncer do intestino.

Pacientes com idade entre 55 e 80 anos, que fumaram pelo menos 1 maço por dia no período de 30 anos, beneficiam-se do rastreamento anual de câncer de pulmão com tomografia computadorizada de tórax de baixa dosagem, com redução do risco de morte de 20%.

De acordo com o médico, existem estudos com resultados contraditórios em relação a redução da mortalidade do câncer de próstata e a realização do rastreamento com PSA e toque retal anuais. O benefício das campanhas de rastreamento são controversos, pelo fato de não se saber quais casos vão apresentar evolução indolente com risco de morbidade do tratamento maior que o da própria doença. Sendo assim, a realização do toque retal e PSA devem ser discutidos com o médico.  

“A Sociedade Brasileira de Urologia recomenda que homens a partir de 50 anos devem procurar um urologista para avaliação individualizada. Para pacientes com história familiar positiva para câncer de próstata em familiares de primeiro grau ou raça negra, sugere-se a realização de rastreamento a partir dos 40 anos. O rastreamento deverá ser realizado após discussão de riscos e potenciais benefícios”, afirma.

O risco de câncer de colo de útero aumenta entre 20 e 30 anos, de modo que o rastreamento de mulheres com o exame de Papanicolau é recomendado a partir de 21 anos pelo menos a cada 3 anos. A vacinação contra  o HPV em meninas entre 9 e 13 anos, instituído pelo Ministério da Saúde, contribui para a prevenção do câncer de colo de útero.

Pesquisas científicas no Brasil para o combate a doença

A produção do conhecimento científico no Brasil tem crescido progressivamente nos últimos 10 anos. Dr. Augusto Pereira detalha que no setor de saúde, as agências responsáveis por pesquisa destinam entre 25 a 30% de seu orçamento à saúde. Porém, o investimento destinado a pesquisa ainda é baixo, correspondendo cerca de 1% do PIB do país. “A pesquisa em saúde carece de tecnologia e inovação, o que pode ser expresso pelo baixo número de patentes comparado a publicação científica” diz.

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O INCA em parceria com a Secretaria de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico — CNPq, estabeleceram o primeiro edital específico para o fomento de pesquisa em câncer no país, priorizando os cânceres de alta prevalência com possibilidade de intervenção efetiva como os de colo de útero, mama , próstata, pulmão, colorretal e neoplasias hematológicas. Por outro lado, a Política Nacional de Atenção Oncológica estabelece que a pesquisa em câncer deve ser incentivada nas diversas áreas como prevenção, controle e assistência, permitindo a interação de diferentes pesquisadores com otimização na relação ao custo-benefício.

Em relação ao desenvolvimento de drogas no combate ao câncer, o especialista afirma que as indústrias farmacêuticas são quem têm sido os principais patrocinadores deste processo. “A participação do Brasil nos estudos multicêntricos de desenvolvimento dos antineoplásicos tem crescido nos últimos anos, permitindo o acesso a pacientes brasileiros com câncer a drogas inovadoras ainda não regulamentadas pela ANVISA”, termina.

dr-augsuto*Dr. Augusto Takao Pereira (CRM 119706) é Oncologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo. Formado pela Universidade Federal de São Paulo. Residência médica em Clínica Médica pela Universidade Federal de São Paulo. Cancerologia Clínica pelo A.C. Camargo Cancer Center. Membro da Sociedade Brasileira de Clínica Médica.